Incapacitados e Deficientes

A edição da Lancet, de 28/8/1999 - volume 354 trata da deficiência (incapacitação) humana, da página 755 a 764. A foto da introdução é o atleta vencedor da modalidade de esqui na neve, dos Jogos Paraolímpicos. Essas competições passaram a se realizar junto com as Olimpíadas desde 1960, em Roma. Foi uma evolução da mentalidade das pessoas e organizações sobre os deficientes, também chamados de incapacitados.

· As Nações Unidas estimam que 10% da população mundial, 600 milhões de pessoas, têm uma acentuada incapacidade, sendo que 80% deles vivem nos países mais pobres, por isso somente 3% recebem algum tipo de tratamento ou reabilitação. Os incapacitados e os deficientes estão entre os mais pobres e marginalizados cidadãos do mundo, tornando-se mendigos para sobreviverem. A UNICEF estima que metade das crianças de rua tem alguma deficiência. Dentro das famílias, as meninas com deficiência são 2 a 3 vezes mais sujeitas a agressões físicas ou sexuais do que as irmãs não deficientes.

· As populações mais primitivas, como os índios norte-americanos, têm considerações mais adequadas para com seus incapacitados. Os índios norte-americanos existentes em 339 tribos nos Estados Unidos e 227 que estão especificamente no Alaska, falam 175 a 200 línguas diferentes e constituem-se em somente 2 milhões de pessoas ( 0,9% da população americana). Em 1990, foram feitas entrevistas com 100 integrantes de várias tribos e 29% viam os deficientes como a si mesmo, 29% como pessoas diferentes 10% com piedade ou simpatia, 28% consideravam castigo de algum antepassado e 4% responderam que não tinham muito respeito e consideração.

Na sociedade dos índios que vivem em comunidades sem pressões sociais e econômicas, os incapacitados têm o que comer, onde dormir e são integrados em trabalhos adequados. Como disse um índio Navajo "ele está conosco mesmo que não tenha o seu corpo inteiro".

· Ao menos 10% das crianças, do nascimento até 18 anos, têm uma doença crônica ou incapacitação. Até 1960, essas crianças eram tratadas com boa vontade e fundos arrecadados por instituições beneficentes, mas aonde eram feitos poucos programas reabilitadores integrados com a sociedade. A partir dessa data houve uma alteração nos cuidados dessas pessoas, que começaram a se desenvolver entre 1970-80, devido a uma série de leis aprovadas pelo Congresso Americano. Até 1960, a criança era deixada na Instituição, depois de 1980 a criança passou a ser tratada em casa pela família, com os recursos dados pelos Planos de Saúde. Em 1999 com a nova metodologia chamada "managed care", em que tudo é gerenciado pelo clínico geral e com economia de recursos. L. C. Kaplan, diretor do centro para crianças com necessidades de tratamentos especiais da Universidade de Yale (email: [email protected]) tem receio que se perca parte das conquistas feitas anteriormente.

· Stanley F. Wainapel é um médico que teve uma perda parcial e contínua da visão, devido a uma doença (coroideremia), que acabou se especializando em reabilitação e trabalha atualmente num dos mais importantes hospitais ligado a essa área, nos Estados Unidos (Montafiore Medical Center de N. York).

Ele foi uma excessão e conseguiu sucesso. Afirma que os médicos são mais preconceituosos para o colega com deficiências do que os pacientes. Dá inúmeros exemplos de médicos que perderam a vi-são, a audição, a condição de andar etc, e com a moderna tecnologia poderiam continuar a desem-penhar a medicina, mas foram impedidos. "Só o médico que já foi paciente, pode tratar adequadamente e com empatia a experiência de ser doente ou incapaz".

A idéia ampliada de incapacitado é que todos nós temos uma incapacitação em alguma área, numa certa época da vida. Portanto o espectro da incapacidade, depende da definição dessa deficiência. Em vez de designar como reabilitação, o tratamento dessas pessoas, deve-se usar o termo readaptação. A incapacitação não é só de pessoas com problemas físicos e mentais, mas também portadores de doenças crônicas ou vícios.

Como diz o Dr. Wainapel, fisiatra cego "todos os médicos têm suas limitações como profissional, principalmente os que adotam uma sub especialização, dentro de uma especialidade da medicina (especialista de pé, de fertilização etc.) Essa é a deficiência intelectual. Existe a deficiência manual (cirurgiões versus clínicos). Além do que é conhecida a incapacidade de atitudes (tratar de homossexuais, viciados, etc.) O médico que não reconhece essas limitações deixa seu paciente correr um sério risco de não ser atendido por um profissional capacitado".